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Precisamos falar sobre distúrbio alimentar!

Eu sempre quis abordar este assunto com vocês, mas como eu acredito que não podemos nos colocar em uma situação que não nos compete passar, sempre posterguei. 

Eis que um dia, uma seguidora (muito querida), tratou sobre DA comigo.
Fiquei muito comovida com a sua história e pedi para que falasse por mim sobre este assunto tão delicado, porém tão necessário!
Ela aceitou e hoje trago pra vocês a carta que ela mesmo escreveu, detalhando TUDO que viveu e vive.

Uma luta diária contra ela mesma, que vence dia após dia! <3


"Desde que eu fiz um desabafo no grupo sobre o meu distúrbio e tive uma conversa com a Feeh sobre isso, fiquei muito na dúvida sobre como abordar esse assunto, essa foi a parte mais difícil. Escrevi e rescrevi isso sei lá quantas vezes e eu vi que estava focando muito na "Larissa" e menos no que realmente importava: as consequências que o distúrbio trouxe pra minha vida. 

Então vou pedir com carinho pra vocês não focarem na "Larissa" e separem, como eu aprendi a separar, a "Larissa" da "Anorexia". 

Eu tenho comportamentos típicos de quem tem um distúrbio alimentar desde muito nova. Já com uns 4 anos tenho relatos dos meus pais que eu pulava refeições (especialmente o café da manhã e com a desculpa que ele me fazia mal), e que eu frequentemente passava mal na escola, de vomitar bile, ter sensações de desmaio, pressão baixa etc... 

Então "não", meu distúrbio não começou exatamente porque eu queria um corpo perfeito. A origem dele é algo meio nebuloso de explicar, até porque eu era muito novinha quando começou, mas não mais tão novinha quando as coisas pioraram. 

Algumas coisas que eu quero falar sobre a Larissa: 

- Eu sempre fui muito ativa, e sempre envolvida com esportes (aprendi a nadar com 1 ano e 8 meses - sim, eu me orgulho muito disso); 
- Meus pais me ensinaram a comer de tudo, então eu nunca fui do tipo de pessoa que separa o que tem no prato. E quando eu deixo de comer, é porque aquilo é "comida" e não porque é uma "comida específica"(menos bacalhau, eu odeio bacalhau); 
- Eu nunca fui gorda, e o mais "gordinha" que eu fui, ainda era um peso normal para a minha altura. 

Algumas consequências do meu distúrbio (tanto alimentar quanto dismórfico corporal): 

- Eu nunca me vi magra. Nem quando eu tinha barriga chapada, nem quando cheguei nos 38kg (nessa tabela eu sempre me vi por ali no número 7, hoje em dia que eu já tenho um pouco mais de consciência do meu corpo me vejo entre o 5 e o 6) 



(Tirei essa foto dia 01/02/2017, dia que escrevo. Não foram tiradas em jejum) 
- Existe uma teoria da conspiração absurda na minha cabeça: o meu "p" das roupas, o meu "36" das calças são equivalentes a "g" e a "40" e qualquer coisa. Eu sempre quero experimentar roupas muito maiores que o meu número, porque nunca acho que vai servir. 
- Eu gosto de comer. Sim, eu sinto prazer em comer. A diferença é que eu sinto a culpa quase que instantaneamente após colocar algo na boca. As vezes eu sinto culpa por desejar uma comida, ou simplesmente precisar de comida. Outras vezes a culpa vem minutos ou horas depois; 
- O distúrbio me faz querer emagrecer até sumir, não necessariamente para me encaixar num padrão, MAS muitas pessoas começam com distúrbios com dietas malucas para emagrecer, "perdem" o controle, mas geralmente tem muitos fatores envolvidos que vão além da perda de peso; 
- Meus exames de sangue sempre vieram alterados. E sempre concluímos que minha anemia, hipoglicemia e pressão baixa fossem algo do meu corpo. Sim, concluímos no plural: meus pais também achavam; 
- O distúrbio é como uma segunda voz na minha cabeça que me faz acreditar que eu não sou boa em nada, pra combater o que essa voz diz, eu sempre procurei ter controle absoluto em tudo o que faço. Inclusive comer. 

Eu demorei um bom tempo da minha vida para aceitar que eu tinha um problema e, sinceramente, demorei muito tempo pra entender o porque aquilo era errado com meu corpo. Pra mim era normal. 

Uma coisa importante de ser dita, que talvez doa muito em algumas pessoas, mas POR FAVOR, leiam até o final antes de querer me socar ou me julgar porque eu tenho um distúrbio: 

Eu comecei comendo apenas quando eu tinha fome, sem acompanhamento médico. Eu não comecei jejuando uma semana logo de cara, eu comecei diminuindo refeições de forma que quanto menos eu comia, menos fome eu sentia. 

Aos 11 anos, por exemplo, que eu fazia treinos de natação, eu me acostumei, muitas vezes a comer apenas o almoço, mas eu NÃO ingeria o que meu corpo precisava, o que me fez perder muito peso, muito rápido e descontroladamente, porque eu consumia pouco, mas tinha um metabolismo a mil, mas principalmente: piorou muito meus exames de sangue. 


Por isso é sempre importante manter seus exames em dia. Se tem algo errado lá... Bom, aí já sabem. Saúde sempre. Não se conformem, como eu me conformei, em achar que era algo normal do corpo, provavelmente não é. 

Nessa mesma época da equipe de natação, eu tenho memórias claras de me olhar no espelho e puxar gordura e chorar. Chorar no banho por ter que tocar aquele corpo (esse tipo de comportamento me acompanha até hoje, odeio ver e sentir meu corpo). 

No final do meu Ensino Fundamental até o último ano do ensino médio, que eu já não estava mais na natação, eu passei por um efeito sanfona. Cheguei no meu maior peso da vida, que ainda era saudável, mas minha alimentação era péssima. Eu quase não comia e quando comia era muita besteira e fast food (adolescentes...). 

Foi no último ano do meu ensino médio que, novamente, as coisas começaram a piorar e daí pra frente foi gradativamente piorando até que comecei a recuperação, mas vou chegar lá... 

Eu fazia jejuns mais longos, forçava meu corpo a ficar neles, a não comer. Eu foi aí que eu realmente entendi o que era PASSAR FOME, coisa que até então eu achava que era meio "mito" na minha vida (apesar de me sentir um lixo, eu realmente me achava invencível, completamente no controle das vontades do meu corpo). 

Foi nessa época que eu tive a minha primeira compulsão alimentar. Eu sai comendo TUDO o que tinha na minha casa, inclusive comi nescau de colher, açúcar, carne, doce, TUDO o que eu vi pela frente. E tive meu primeiro vômito forçado. Eu sempre senti culpa por comer, provavelmente por isso eu comia pouco, numa tentativa da culpa ser menor (não era), mas a compulsão me fez perder aquela sensação de invencibilidade. Aquilo acabou comigo. Eu não podia deixar ISSO, a COMIDA, vencer a minha cabeça. 

Como uma frase que eu já li em um desses blogs pró-anorexia: "eu sou muito mais forte que um bolinho". 

Ai eu comecei a ter mais e mais controle do que eu comia. Eu tomava laxantes, diuréticos, mesmo passando dias sem comer ou beber água. 

Quando me mudei pro exterior, que fiquei longe de tudo que eu conhecia, foi quando eu me perdi de vez em algo que eu tinha certeza que tinha o controle, que era o distúrbio. 

Eu tinha uma regra comigo mesma: eu tinha permissão para comer até 100kal/dia, que poderiam vir de uma tangerina e um kiwi. Se eu sentisse fome, eu iria tomar um gole de coca zero. Eu tinha direito a, no máximo, cinco goles de coca zero por dia. 

Eventualmente eu tinha compulsões alimentares, eles aconteciam a partir do 4 ou 5 dia seguindo a regra. 

Eu fazia mais da metade de um pacote de macarrão com tudo que tivesse na geladeira e depois disso eu poderia ter três ações: 
- Comer e provocar vômito (eu cheguei a vomitar sangue); 
- Jogar direto toda a comida fora no vaso; 
- Mastigar e cuspir a comida no vaso. 

Essa foi, com toda a certeza, a pior época. Eu tinha frequentemente pesadelos com comida e as vezes tinha compulsão alimentar no sonho e acordava me sentindo culpada por ter comido no sonho. Perdi cerca de 1/4 do volume do meu cabelo. Minha menstruação parou por alguns meses. Eu tinha dores abdominais agudas. Meu cabelo ficou fraco e quebradiço. Eu vivia com dores de cabeça. Quando eu fazia curso, que eu tinha que subir dois andares de escada, eu tinha que parar no meio do caminho e geralmente eu vomitava bile quando conseguia chegar no meu andar, sem contar as sensações de desmaio e taquicardia. Eu me pesava diversas vezes por dia pra ter certeza que não tinha engordado. Eu já cuspi saliva pra "não engordar". Eu provoquei vômito mesmo estando em jejum há dias, mais de uma vez. Eu me cortava por ganhar peso, por comer e as vezes até por desejar comer alguma coisa. 

Eu não tenho muitas fotos dessa época em que fiquei pior porque quase nunca saia da cama ou do meu quarto. 

Eu comecei a fazer tratamento pela minha mãe, ela me "encheu muito o saco", e eu não tinha mais paciência pra ninguém no meu pé. Estou sendo bruta agora na maneira de falar, não por ingratidão, mas porque era o que se passava na minha cabeça, só que temperado com uns palavrões a mais. 

Ainda em tratamento, eu ganhei a minha bebê, a Yui (minha gatinha)  foi uma tentativa do meu pai de me fazer levantar mais. Por mais que a minha médica estivesse me ajudando muito, eu ainda não conseguia (por causa da depressão) fazer muitas coisas. 

De três em três meses eu tirava uma foto do crescimento dela. O que pouca gente sabe, é que também eram fotos do meu ganho de peso. Ou seja, de uma parte da minha recuperação. 
(Gastem um tempinho tentando imaginar a circunferência do meu braço na primeira imagem. Eu já tinha ganhado uns 5kg naquela época.) 

(Já havia recuperado cerca de 8kg) 

Quando voltei pro Brasil, ainda estava ganhando meus últimos kg. A meta eram 50kg, que era meu peso "normal". Minha avó foi um anjo: fazia comida gostosa e ficava comigo à mesa conversando. Nunca conversei sobre meu distúrbio com ela. Na verdade, eu nunca falei muito sobre isso com ninguém da minha família. 

Mantendo um peso saudável, mas uma alimentação péssima (os cortes me acompanharam até essa fase, pra "controlar" a culpa em precisar comer), em meados de 2015 eu tentei suicídio. Ganhar peso, ter que comer, o sentimento de "falta de controle", de não ser o suficiente foram demais pra mim. Eu só falhei porque já havia gastado todo o corte do meu canivete, porque mesmo serrando ele nos meus pulsos, ele praticamente não cortava mais (eu pensei muito se deveria ou não colocar isso, mas quero que imaginem por uns minutos o desespero de alguém que está fazendo movimentos de serrar com algo cortante nos pulsos a ponto do objeto sem corte queimar a sua pele, mas não cortar). 

No dia seguinte de manhã eu fui para o hospital sozinha. Ninguém sabia o que tinha acontecido. Ninguém. Eu vi fiquei esperando a manhã inteira sentada na frente do consultório da psicóloga, completamente apática. Eu nem sei dizer o que se passava direito na minha cabeça. 

Vi uma psicóloga e uma psiquiatra naquele dia... e tive que "aturar" um enfermeiro limpando e fazendo curativos nos meus cortes da perna e no que eu tinha feito nos braços. 

Enfim... uma parte bem difícil do tratamento foi começar a tomar os remédios, que eram EXTREMAMENTE necessários, mas eu não sentia nada além de muito sono. Eu não sentia tristeza, mas também não sentia alegria. Eu estava com 22 anos e não tinha "permissão" pra ficar sozinha. 

Na tentativa de suicídio, foi a última vez que eu me cortei, apesar de ter sentido vontade várias outras vezes, inclusive dias não muito distantes de hoje. 

Eu mantenho o peso saudável desde que voltei, mas ainda tenho dias de restrição alimentar, em que a minha repulsa por comida fala muito mais alto que qualquer outra coisa. 

Ano passado quando me mudei pra SP tive um exemplo vivo e perto de alguém emagrecendo de forma saudável, comendo bem, fazendo atividades, mas também se permitindo comer "gordices" de vez em quando. 

Foi vendo essa pessoa que eu quis aquilo pra mim. Não é fácil, nunca pareceu fácil, mas sempre pareceu o mais certo. 

E foi ai que eu procurei uma nutri, que me aconselhou logo de cara a voltar, pelo menos com o tratamento psicológico. 

Desde então recebi alguns tapas na cara da vida: 
- Eu aprendi a tomar café da manhã. No começo era ruim, me sentia mal e pesada, mas hoje é muito difícil ficar sem. Eu descobri que o que me fazia mal era o muito tempo de jejum e não o comer em si; 
- Minha anemia, hipoglicemia e pressão baixa não existem mais, nunca foram algo do meu corpo, eram uma deficiência na minha "dieta"; 
- Eu perco gordura muito mais fácil agora comendo mais do que quando eu comia menos, também fico muito mais disposta durante todo o dia; 
- Meu consumo diário de alimentos era tão baixo, que em uma dieta para perder gordura, a primeira reação do meu corpo foi engordar. 

Então... pra algumas pessoa que estejam lendo e talvez pensando em entrar pra isso (porque sim, eu já vi gente QUERENDO ser anoréxica), ou que passem por isso e estejam com medo de mudar, com medo de engordar... 

Bom, primeiramente pra quem "quer" isso... não tem nada de glamuroso ou bonito em distúrbios alimentares, não queira essa neura, não queira esse terrorismo psicológico pra você. 

Pra quem passa por isso, como eu, e está com medo de procurar ajuda... Seja forte, procurar ajuda não é errado e não mostra que você é fraco. Você pode achar que está controlando tudo, mas não está, você não vai conseguir largar o distúrbio quando quiser e provavelmente nunca vai estar satisfeita com seu peso. Ainda dá tempo de você passar por isso. Vai sim ser difícil, eu choro até hoje, eu tenho recaídas até hoje, mas mesmo sabendo que ainda falta muito, eu não tenho como expressar pra você o quanto isso vale a pena! 

Esse ano eu consegui comer algo pela primeira vez e não sentir culpa nenhuma. Sim, foi uma "refeição" contra todas as outras seguidas de culpa da minha vida, mas foi a minha esperança. Se eu consegui uma, eu vou conseguir ter outras, eu SEI disso! 

Também foi a vitória de receber meus exames e vir tudo normal!!! No limite do limite, mas na faixa da normalidade!!! Tem noção do que é isso?! Eu sei que você consegue e mesmo sem saber quem você possa ser, eu acredito muito em você e na sua recuperação. 

Pra quem começou a ler talvez pra tentar entender como é passar por isso... Tente não julgar quem passa por isso, por qualquer que seja o distúrbio... por mais que algumas acabem se perdendo na vaidade, existem momentos que a gente acaba "enganada" pela própria cabeça, de uma maneira que o desespero é tão grande que tudo é válido pra tentar se sentir um pouco melhor, e na verdade aquilo só faz piorar... ninguém escolhe DE VERDADE passar por isso. 


(Bracelete que eu tenho da conscientização de distúrbios alimentares) 
Por fim, gostaria de lembrar que o tratamento para distúrbios alimentares deve ser feito por, no mínimo, psicólogo, psiquiatra e nutricionista, preferencialmente especialistas em D.A. 

Pra quem quiser, me coloco à disposição pra responder mais perguntas que possam ter ficado. 

Um beijo da Larissa, que é a Larissa e não um distúrbio."


Obrigada Lari, você é uma GUERREIRA e estamos juntas nessa! <3 



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2 Comentários no blog

2 comentários:

  1. Incrível sua história!Parabéns pela coragem!

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  2. Triste e feliz história ao mesmo tempo. Larissa, você é uma guerreira!!! Me identifiquei com você porque passei por isso, mas não no mesmo nivel. O meu disturbio não foi tão radical, mas foi muito difícil controlar. Eu consegui e sei que você também consegue ;)
    Beijos!

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